sábado, 1 de junho de 2013

Entrevista:


Meninos e meninas: diferentes, mas iguais


Estereótipos sobre masculinidade e feminilidade. Você convive com eles desde a infância. Meninos gostam de azul, são bagunceiros e não choram. Preferem lavar o carro, enquanto as meninas lavam a louça. Elas têm a letra caprichada, compreendem melhor o que é disciplina e preferem as cores rosa e vermelho. 

Esses são conceitos que são herdados e transmitimos em nossa cultura. Mas são verdades imutáveis?

As relações de gênero, que tratam dos papéis do homem e da mulher, são estudados há décadas. Saiba mais sobre esse tema nesta entrevista que o portal fez com a pedagoga Liane Kelen Rizzato, mestranda em Sociologia da Educação pela USP. 
Esses conceitos relacionados ao gênero, tão comuns em nosso cotidiano, expressam a verdade sobre homens e mulheres?
Essas ideias sobre o comportamento de meninos e meninas estão presentes no senso comum, já nos são “naturais”. No entanto, não passam de estereótipos construídos socialmente e fortemente enraizados no modo como as pessoas pensam a sexualidade e as relações de gênero.
Os meninos gostam de azul, não choram e são bagunceiros. Por quê? Qual a cor escolhida pelos adultos para vestirem um bebê do sexo masculino? Não seria predominantemente AZUL? Qual a postura dos adultos quando um menino começa a chorar? Certamente dirão “parece uma menininha chorando” ou “pare de chorar! Se comporte como homem, menino!”. Quais as brincadeiras incentivadas aos meninos? A maior parte delas são as que descumprem as regras, que trazem aventura, que desafiem os limites físicos e emocionais. Depois, injustamente, os intitulamos de bagunceiros.
Vejamos as meninas. O que é cobrado das meninas? A todo o momento que ela seja caprichosa e dedicada. Que se preocupe sempre com a estética. Quem ganha kit cozinha como brinquedo, não são as meninas? E não se espera que elas lavem a louça “de verdade” também? Qual a cor escolhida pelos adultos para vestirem um bebê do sexo feminino? Não seria predominantemente ROSA?
Quando nos propomos a refletir sobre as relações de gênero, é importante atentarmos para o fato de que um bebê é estimulado a ser menino e a comportar-se como tal desde que se sabe que tem o sexo masculino. E o mesmo ocorre com a menina, no estímulo a desenvolver sua feminilidade.
Mas o que pensar do menino que gosta de rosa e brinca de bonecas? E o que dizer sobre a menina que gosta de azul e prefere brincar de carrinho? São as transgressões dessas crianças aos padrões de comportamento para cada gênero que nos permitem notar que, ao impor determinado comportamento à menina, a excluímos de uma infinidade de experiências que são reservadas somente aos meninos. E o mesmo acontece com os meninos, quando não lhes é permitido experienciar uma brincadeira tida como feminina, sob o risco de ser tachado de “menininha”.

De onde vêm esses estereótipos sobre masculinidade e feminilidade?
Esses estereótipos foram e vêm sendo construídos socialmente sempre dentro de um contexto de tempo e espaço. Pode-se usar o seguinte raciocínio: um grupo humano, que vivia em determinada época e em determinado local, construiu a ideia de que meninos/homens devem ser fortes e não podem demonstrar fraqueza, muito menos chorar. Os grupos sociais descendentes foram reproduzindo essa ideia ao ponto de, em determinado momento histórico, ela parecer natural e inquestionável: sempre foi assim e é assim que tem que ser. Os estereótipos atuam como símbolos sociais capazes de sustentar normas e padrões de comportamento, no caso da temática das relações de gênero, de manter a binaridade fixa masculino x feminino como resultado do consenso social.


Esses conceitos começam a se formar quando ainda somos crianças, seja em casa, seja na escola. São perigosos quando tratados como verdades absolutas? Há prejuízos que a reprodução de estereótipos possa trazer às crianças e à sociedade?
A manutenção da binaridade fixa masculino x feminino, ou se é masculino ou se é feminino, gera grande restrição às crianças, jovens e adultos nas formas de viver a identidade de gênero e de construir sua orientação sexual.
Muitos autores entendem que não há o masculino como a única forma de ser homem ou o feminino como a única forma de ser mulher: no interior de cada categoria existem as tentativas de rupturas, de transgressões e de reconstrução pelo sujeito. Todos nós temos características tidas como masculinas e características tidas como femininas atuando em conjunto na formação da nossa identidade e personalidade. No entanto, há uma forte pressão para que mulheres e meninas; homens e meninos vivenciem a sua identidade de gênero dentro dos padrões esperados para cada sexo e sempre em consonância com a orientação sexual que expressam. Meninas devem ser somente femininas e gostar de namorar meninos; meninos devem ser somente masculinos e gostar de namorar meninas.
Apesar de parecer natural, essa não é a única forma de organização da sociedade. Se optarmos pela pluralidade de vivências para cada gênero – meninas podem brincar com carrinhos e meninos podem brincar com bonecas – a experiência de vida de cada um/a será enriquecida e o sexismo e a homofobia perderiam o sentido de ser.

Há anos as diferenças entre os papéis atribuídos a homens e mulheres são estudadas. É possível definir que papéis são esses? O que é do homem e o que é da mulher realmente?
Na verdade, não há papéis femininos e masculinos, mas lugares sociais que historicamente foram sendo atribuídos a homens e mulheres, a partir de uma organização social baseada no patriarcalismo.
A cultura patriarcal é aquela que diz que a diferença entre homem e mulher é sempre hierárquica. Ou seja, o homem é a autoridade, imposta institucionalmente sobre a mulher e os filhos no âmbito familiar. Essa cultura influenciou muito na construção da sociedade que temos hoje e na forma como essa sociedade entende a diferença entre os sexos. A partir dessa hierarquia, convencionalmente, todas as tarefas realizadas pelas mulheres foram sendo caracterizadas como inferiores e “menos importantes” do que as realizadas pelos homens. A casa da família, ou seja, o âmbito privado ficou sendo o reduto feminino, enquanto o trabalho, a política, que formam a esfera pública, ficou no poder dos homens.
O sexismo ainda atua de maneira contundente na sociedade, mas hoje é possível notar, por exemplo, no âmbito profissional, a circulação de algumas mulheres em meios profissionais antes ocupados só por homens, assim como a circulação de homens em meios profissionais tidos como femininos.

Isso quer dizer que um menino poderia, por exemplo, brincar de boneca de quisesse? E uma menina gostar de ferramentas e marcenaria?
O fato de meninos, muitas vezes, não escolherem brincar com bonecas, assim como das meninas não escolherem brincar com ferramentas, não está vinculado ao fato de não se interessarem ou de não gostarem dessas brincadeiras, e sim a uma tentativa de atender às expectativas dos adultos e das outras crianças sobre o brincar dos meninos. Eles devem ser ativos, dinâmicos, construtores, com aventuras e com muita ação. Já o brincar delas deve ser cuidador, estético, moderado, elegante e calmo.
Se nós não fizéssemos essa divisão, entre brincadeiras e comportamentos de meninos e de meninas, ampliaríamos as possibilidades para as crianças, contribuindo com vivências mais ricas, o que acrescentaria muito na formação da identidade de cada uma delas.
Sou diretora de uma escola de Educação Infantil, que atende crianças de 0 a 3 anos, e posso dizer que essa diferenciação dos brinquedos por sexo começa apenas quando a criança se apropria da linguagem e começa a entender que há um sistema de gêneros. Para que entendamos melhor, se é um menino, ele passa a querer corresponder às expectativas sociais para o seu gênero e se comporta como um típico menino. Interessa-se apenas pela bola e pelos carrinhos. É muito frequente que crianças de 2 anos do sexo masculino, ao segurarem um brinquedo em suas mãos perguntem ao adulto: “é de menino?”, para obter a aprovação deste e prosseguir a brincadeira.

O assunto está sendo suficientemente discutido em casa e na escola? Pais e professores estão preparados para enfrentar situações que fogem aos modelos tradicionais?
Esse debate sobre sexualidade e diversidade sexual ainda está muito restrito ao meio acadêmico, aos movimentos sociais organizados e aos poucos profissionais da educação que se interessam pelo assunto. O que ainda impera no senso comum são os estereótipos e os padrões para a vivência sexual baseados na binaridade entre os sexos – ou se é feminino ou masculino. Em minha pesquisa de mestrado, pude perceber que mesmo os professores que se interessam por essas temáticas têm muitas dúvidas, inseguranças, e ainda se baseiam em ideias presentes no senso comum para pensar sobre gênero, sexualidade e diversidade sexual. Há a necessidade de que sejam construídos, dentro da escola, espaços para discussões acerca do assunto para que esses profissionais não se sintam sozinhos e perdidos em suas reflexões e no trabalho realizado por eles junto aos alunos.

Como o tema relações de gênero poderia ser abordado nesses e em outros ambientes?
No caso da escola, acredito que primeiramente seja necessário desvincular as escolhas que as crianças fazem por brinquedos, cores e comportamentos de sua orientação sexual. Apesar de estarem fortemente interligados, sexo e gênero não são sinônimos, assim como identidade de gênero e orientação sexual também não o são. Não há uma relação de causa e efeito entre as brincadeiras que a criança escolhe e a orientação sexual que vai expressar: um menino que brinca de boneca não faz isso porque é homossexual ou tende a ser, mas o faz simplesmente porque no brincar a criança é livre. O brincar é um espaço de criação, então por que restringi-lo?
A escola pode ser um espaço que estimule a mudança social, por isso precisa questionar estereótipos, padrões sexuais e de gênero, assim como o sexismo e a homofobia. Entendo que a maneira mais adequada para se abordar o tema das relações de gênero, da sexualidade e da diversidade sexual seja o princípio da garantia dos direitos humanos a todos os sujeitos, independentemente do quanto este se ajusta ou não aos padrões impostos socialmente.
Tudo isso vale para qualquer adulto que considere a criança como sujeito de direitos.

Essa discussão é nova apenas para o Brasil? Como o assunto é visto em outros países?
Essa discussão não é nova no Brasil, porém, por meio dos programas e políticas apoiados, a partir de 2003, é que essas temáticas ganharam mais espaço, com as questões de igualdade de gênero e diversidade sexual sendo tratadas nas secretarias e em vários programas do Governo Federal.
Como uma das conquistas desses programas e políticas podemos citar a instauração da Lei Maria da Penha (Lei no 11.340/06) que busca criar mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Ainda que tenhamos diversas conquistas, nosso país ainda apresenta muitos entraves em torno dessas temáticas. Um deles pode ser notado na dificuldade da população em discutir sobre o direito da mulher ao aborto como uma questão de saúde pública. Já em outros países como Canadá, Cuba, EUA, Áustria, Bélgica e Bulgária a população foi capaz de, ao menos, travar uma discussão sobre esse assunto.


9-2013. Portal Educacional. Todos os Direitos Reservados
Fonte disponível em http://www.educacional.com.br/entrevistas/ent_educ_texto.asp?Id=486067 > Acesso em 25.05.2013.

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