Entrevista:
Bullying
– atacando a causa e não só a consequência
A
escola deveria ser um ambiente de aprendizagem e discussão de valores. Mas
muitos estudantes, em vez de se sentirem protegidos dentro dela, veem-se
alvo de xingamentos, ameaças e agressões físicas cometidos pelos próprios
colegas. O bullying gera sofrimento às vítimas e pode
causar danos psicológicos irreparáveis. Com frequência, as intimidações são
alimentadas pela Internet, em sites de relacionamento.
A
Justiça tem sido uma alternativa para as vítimas conseguirem dar fim às
agressões. Já há registro de casos no judiciário brasileiro de pais de garotos
que insultavam colegas e de escolas que tiveram que indenizar vítimas de bullying. Mas a pedagoga, doutora em
educação e professora do departamento de psicologia educacional da UnicampTelma
Pileggi Vinha alerta
que não basta atacar as consequências. É preciso refletir sobre as causas.
Acompanhe a entrevista.
Muitas
crianças e adolescentes já sabem o que é o bullying, já
que muito se fala sobre esse assunto no momento. Entretanto, uma pesquisa da
Plan Brasil (com dados de 2009 e concluída em 2010) aponta que pelo menos 10%
dos pesquisados foram vítimas debullying. No ambiente virtual, esse número sobe para 16,8%. Ainda
falta informação para prevenir o problema ou apenas informação não basta?
Como
no espaço virtual há menos vigilância dos adultos, é possível dizer que na
Internet os estudantes mostram o que realmente são e sabem, confirmando a tese
que defendo de que os jovens não são educados para lidar com o conflito, para a
autonomia e para a vivência de relações mais respeitosas e justas.
A
informação é necessária, mas insuficiente para que haja transformação. É preciso
que o respeito, o diálogo, a cooperação e a justiça se tornem valores para o
indivíduo. O temor da punição e a vigilância contêm uma pessoa a curto prazo,
mas não promovem mudança efetiva do comportamento, daí a necessidade da
construção de um ambiente cooperativo na escola que favoreça a formação da
identidade ética do jovem.
Quais
são os sinais, no caso de um episódio de bullying,
que indicam que chegou o momento de o professor ou a escola interferirem?
É
preciso refletir na forma com que a escola lida com qualquer agressão, não
importando se ao professor ou aos colegas. Ser agredido é sempre ruim. O
problema é que essa intervenção, na maioria das vezes, é feita por meio de
advertências ou suspensões, o que pouco ajuda na mudança do comportamento. É
preciso ir além na reflexão e se pensar nas causas do ocorrido e na qualidade
das relações entre as pessoas na escola. Algumas perguntas ajudam nessa
reflexão: são comuns situações de desrespeito e maus tratos entre os alunos?
Como é a relação entre os professores e estudantes? Está havendo situações de
exposição e críticas aos estudantes? Quando os alunos ou adultos se sentem humilhados,
expostos ou injustiçados, quais espaços existem na escola para o diálogo
e para colocarem o fato, tendo a certeza de que serão efetivamente ouvidos e
que algo será feito?
Se
os alunos não podem tomar decisões, nem mesmo discutir problemas e situações em
que estão envolvidos, torna-se mais difícil desenvolver um comportamento
responsável. O conflito sempre vai existir. Contudo, nas escolas mais
cooperativas, abertas ao diálogo, onde se estabelece uma relação de respeito
mútuo, é mais fácil reduzir a agressividade.
Tanto
a escola quanto os pais de um agressor podem ser responsabilizados legalmente
no caso de bullying contra um aluno. A escola e os pais devem ser
responsabilizados?
Sem
dúvida, a escola e a família são responsáveis. Mas o que temos visto é que
tanto a família como a escola não sabem como intervir e atuar nas causas e nas
consequências do bullying.
Vários estudos indicam que a escola considera mais graves as agressões
envolvendo adultos do que as que acontecem entre os alunos (em geral, vistas
como “brincadeiras da idade”), atuando com mais frequência e severidade quando
a vítima é um educador ou um funcionário. Ações na justiça, que se
tornaram mais comuns, têm mobilizado a sociedade a discutir o problema, que em
geral era ignorado, e obrigado a escola a refletir sobre sua
responsabilidade na aprendizagem da convivência. A escola não pode depender do
bom desempenho da família para educar seus alunos para a vivência em uma
sociedade democrática e contemporânea e nem esperar receber alunos ideais como
pré-requisito para ter êxito em sua tarefa. Aliás, as crianças que apresentam
dificuldades, provavelmente em decorrência do ambiente familiar, são as que
mais precisam do apoio da escola para se inserir socialmente.
O
que as escolas podem fazer para prevenir o bullying?
Em
geral, as propostas de intervenção são superficiais, como punições disfarçadas,
grêmios, recompensas e projetos sobre ética. Ideias que atuam na contenção do
conflito, mas não ajudam os envolvidos a superarem o problema. Mas como são
medidas simplistas e fáceis de serem aplicadas (apesar de insuficientes), são
recebidas como positivas pelos professores, o que gera o ingênuo sentimento de
que, ao segui-las, a “escola está fazendo sua parte”. Como não dará certo por
muito tempo ou a violência continuará ocorrendo fora da instituição, a “culpa”
novamente recairá apenas na família e no aluno.
Assim,
é preciso haver estratégias que incidam sobre os alvos, os autores e mesmo
sobre os espectadores. O tema é complexo, mas algumas sugestões seriam: criar
estratégias de mediação de conflitos, envolvendo pais, alunos ou professores
que atuariam nos momentos de crise; a formação de um grupo de crianças ou
adolescentes para atuarem como conselheiros e ajudarem a outras crianças e
adolescentes que sofrem bullying;
e processos educativos que tentem restabelecer a sensibilidade emocional de
meninos e meninas agressores. Há também estratégias de longo prazo, como a
montagem de um estatuto contra bullying na escola e a criação de assembleias em cada classe para
discutir os problemas da sala e propor soluções conjuntas.
Como
é possível estabelecer o limite entre o que é bullying e o
que faz parte do comportamento de crianças e adolescentes, como o uso de
apelidos, um xingamento durante um episódio de briga ou uma gozação em
decorrência da aparência do colega, por exemplo?
O bullying é um termo inglês utilizado para
designar a prática de atos agressivos entre estudantes. Se traduzido ao pé da
letra seria intimidação. Contudo, não se refere a qualquer intimidação. Possui
5 características principais: agressão, intenção, segmentação,
recorrência e vitimização. Assim, há intenção do(s) autor(es) em ferir; são
atos repetidos e constantes contra um ou mais alvos; há uma espécie de
concordância por parte da vítima sobre o que pensam dela (por isso há crianças
obesas que são alvos e outras não); e há um público que prestigia as agressões
(os ataques de bullying são escondidos dos adultos, mas nunca
dos colegas). Vale a pena destacar que esses espectadores alimentam o problema.
Muitas vezes, esse público participa com risos e olhares, mantendo a imagem de
que isto é divertido e de que pertence ao grupo dos mais poderosos, ou que pelo
menos não faz parte do grupo dos mais “fracos”. Há também o medo de se tornar a
“próxima vítima”. É preciso ficar do ”lado do mais forte”.
Os
professores estão preparados para perceber e lidar com obullying?
Os
estudos têm indicado que raramente o conflito é um tema que está presente nos
cursos de formação para professores. Ele vira assunto nas escolas somente
quando há algum problema, em geral, indisciplinar. Essas discussões se dão em
cima do senso comum, não havendo estudo ou qualquer embasamento teórico que
contribua para aprofundar as reflexões e promover intervenções mais
construtivas.
As famílias devem ser
envolvidas quando for identificado um caso debullying?
Sem
dúvida. As famílias devem ser envolvidas independentemente de o seu filho ser
autor, espectador ou alvo de bullying ou cyberbullying.
Os pais devem ser envolvidos nas ações da escola sobre essa temática desde o
início: nas palestras de sensibilização, nas comissões e nos projetos.
E
no caso do cyberbullying, a escola deve monitorar as redes sociais dos alunos e
interferir se perceber algum abuso entre colegas?
É
preciso educar nossas crianças e jovens. Discutir o tema, pesquisar ocorrências
e debater com os alunos, levar pessoas que foram alvos para trocar ideias. Em
geral, as intervenções da escola são sempre as mesmas: punições, vigilância ou
aulas contendo esclarecimento sobre as leis. Novamente atuam nas consequências,
mas não nas causas e não educam.
Fonte disponível em http://www.educacional.com.br/entrevistas/ent_educ_texto.asp?Id=508 > Acesso em 25.05.2013.
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