sábado, 1 de junho de 2013

Entrevista:

Bullying – atacando a causa e não só a consequência



A escola deveria ser um ambiente de aprendizagem e discussão de valores. Mas muitos estudantes, em vez de se sentirem protegidos dentro dela,  veem-se alvo de xingamentos, ameaças e agressões físicas cometidos pelos próprios colegas. O bullying gera sofrimento às vítimas e pode causar danos psicológicos irreparáveis. Com frequência, as intimidações são alimentadas pela Internet, em sites de relacionamento.
A Justiça tem sido uma alternativa para as vítimas conseguirem dar fim às agressões. Já há registro de casos no judiciário brasileiro de pais de garotos que insultavam colegas e de escolas que tiveram que indenizar vítimas de bullying. Mas a pedagoga, doutora em educação e professora do departamento de psicologia educacional da UnicampTelma Pileggi Vinha alerta que não basta atacar as consequências. É preciso refletir sobre as causas. Acompanhe a entrevista.
Muitas crianças e adolescentes já sabem o que é o bullying, já que muito se fala sobre esse assunto no momento. Entretanto, uma pesquisa da Plan Brasil (com dados de 2009 e concluída em 2010) aponta que pelo menos 10% dos pesquisados foram vítimas debullying. No ambiente virtual, esse número sobe para 16,8%. Ainda falta informação para prevenir o problema ou apenas informação não basta?

Como no espaço virtual há menos vigilância dos adultos, é possível dizer que na Internet os estudantes mostram o que realmente são e sabem, confirmando a tese que defendo de que os jovens não são educados para lidar com o conflito, para a autonomia e para a vivência de relações mais respeitosas e justas.
A informação é necessária, mas insuficiente para que haja transformação. É preciso que o respeito, o diálogo, a cooperação e a justiça se tornem valores para o indivíduo. O temor da punição e a vigilância contêm uma pessoa a curto prazo, mas não promovem mudança efetiva do comportamento, daí a necessidade da construção de um ambiente cooperativo na escola que favoreça a formação da identidade ética do jovem.
Quais são os sinais, no caso de um episódio de bullying, que indicam que chegou o momento de o professor ou a escola interferirem?

É preciso refletir na forma com que a escola lida com qualquer agressão, não importando se ao professor ou aos colegas. Ser agredido é sempre ruim. O problema é que essa intervenção, na maioria das vezes, é feita por meio de advertências ou suspensões, o que pouco ajuda na mudança do comportamento. É preciso ir além na reflexão e se pensar nas causas do ocorrido e na qualidade das relações entre as pessoas na escola. Algumas perguntas ajudam nessa reflexão: são comuns situações de desrespeito e maus tratos entre os alunos? Como é a relação entre os professores e estudantes? Está havendo situações de exposição e críticas aos estudantes? Quando os alunos ou adultos se sentem humilhados, expostos ou injustiçados, quais espaços  existem na escola para o diálogo e para colocarem o fato, tendo a certeza de que serão efetivamente ouvidos e que algo será feito?
Se os alunos não podem tomar decisões, nem mesmo discutir problemas e situações em que estão envolvidos, torna-se mais difícil desenvolver um comportamento responsável. O conflito sempre vai existir. Contudo, nas escolas mais cooperativas, abertas ao diálogo, onde se estabelece uma relação de respeito mútuo, é mais fácil reduzir a agressividade. 
Tanto a escola quanto os pais de um agressor podem ser responsabilizados legalmente no caso de bullying contra um aluno. A escola e os pais devem ser responsabilizados?

Sem dúvida, a escola e a família são responsáveis. Mas o que temos visto é que tanto a família como a escola não sabem como intervir e atuar nas causas e nas consequências do bullying. Vários estudos indicam que a escola considera mais graves as agressões envolvendo adultos do que as que acontecem entre os alunos (em geral, vistas como “brincadeiras da idade”), atuando com mais frequência e severidade quando a vítima é um educador ou um funcionário. Ações na justiça, que  se tornaram mais comuns, têm mobilizado a sociedade a discutir o problema, que em geral era ignorado, e  obrigado a escola a refletir sobre sua responsabilidade na aprendizagem da convivência. A escola não pode depender do bom desempenho da família para educar seus alunos para a vivência em uma sociedade democrática e contemporânea e nem esperar receber alunos ideais como pré-requisito para ter êxito em sua tarefa. Aliás, as crianças que apresentam dificuldades, provavelmente em decorrência do ambiente familiar, são as que mais precisam do apoio da escola para se inserir socialmente.
O que as escolas podem fazer para prevenir o bullying?

Em geral, as propostas de intervenção são superficiais, como punições disfarçadas, grêmios, recompensas e projetos sobre ética. Ideias que atuam na contenção do conflito, mas não ajudam os envolvidos a superarem o problema. Mas como são medidas simplistas e fáceis de serem aplicadas (apesar de insuficientes), são recebidas como positivas pelos professores, o que gera o ingênuo sentimento de que, ao segui-las, a “escola está fazendo sua parte”. Como não dará certo por muito tempo ou a violência continuará ocorrendo fora da instituição, a “culpa” novamente recairá apenas na família e no aluno.
Assim, é preciso haver estratégias que incidam sobre os alvos, os autores e mesmo sobre os espectadores. O tema é complexo, mas algumas sugestões seriam: criar estratégias de mediação de conflitos, envolvendo pais, alunos ou professores que atuariam nos momentos de crise; a formação de um grupo de crianças ou adolescentes para atuarem como conselheiros e ajudarem a outras crianças e adolescentes que sofrem bullying; e processos educativos que tentem restabelecer a sensibilidade emocional de meninos e meninas agressores. Há também estratégias de longo prazo, como a montagem de um estatuto contra bullying na escola e a criação de assembleias em cada classe para discutir os problemas da sala e propor soluções conjuntas.
Como é possível estabelecer o limite entre o que é bullying e o que faz parte do comportamento de crianças e adolescentes, como o uso de apelidos, um xingamento durante um episódio de briga ou uma gozação em decorrência da aparência do colega, por exemplo?

O bullying é um termo inglês utilizado para designar a prática de atos agressivos entre estudantes. Se traduzido ao pé da letra seria intimidação. Contudo, não se refere a qualquer intimidação. Possui  5 características principais: agressão, intenção, segmentação, recorrência e vitimização. Assim, há intenção do(s) autor(es) em ferir; são atos repetidos e constantes contra um ou mais alvos; há uma espécie de concordância por parte da vítima sobre o que pensam dela (por isso há crianças obesas que são alvos e outras não); e há um público que prestigia as agressões (os ataques de bullying são escondidos dos adultos, mas nunca dos colegas). Vale a pena destacar que esses espectadores alimentam o problema. Muitas vezes, esse público participa com risos e olhares, mantendo a imagem de que isto é divertido e de que pertence ao grupo dos mais poderosos, ou que pelo menos não faz parte do grupo dos mais “fracos”. Há também o medo de se tornar a “próxima vítima”. É preciso ficar do ”lado do mais forte”.
Os professores estão preparados para perceber e lidar com obullying?

Os estudos têm indicado que raramente o conflito é um tema que está presente nos cursos de formação para professores. Ele vira assunto nas escolas somente quando há algum problema, em geral, indisciplinar. Essas discussões se dão em cima do senso comum, não havendo estudo ou qualquer embasamento teórico que contribua para aprofundar as reflexões e promover intervenções mais construtivas.
As famílias devem ser envolvidas quando for identificado um caso debullying?

Sem dúvida. As famílias devem ser envolvidas independentemente de o seu filho ser autor, espectador ou alvo de bullying ou cyberbullying. Os pais devem ser envolvidos nas ações da escola sobre essa temática desde o início: nas palestras de sensibilização, nas comissões e nos projetos. 
E no caso do cyberbullying, a escola deve monitorar as redes sociais dos alunos e interferir se perceber algum abuso entre colegas?

É preciso educar nossas crianças e jovens. Discutir o tema, pesquisar ocorrências e debater com os alunos, levar pessoas que foram alvos para trocar ideias. Em geral, as intervenções da escola são sempre as mesmas: punições, vigilância ou aulas contendo esclarecimento sobre as leis. Novamente atuam nas consequências, mas não nas causas e não educam.




Fonte disponível em http://www.educacional.com.br/entrevistas/ent_educ_texto.asp?Id=508 > Acesso em 25.05.2013.

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