8 questões essenciais sobre projeto
político-pedagógico
Desde a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB), em 1996, toda escola precisa ter um projeto político
pedagógico (o PPP, ou simplesmente projeto pedagógico). Esse documento deve
explicitar as características que gestores, professores, funcionários, pais e
alunos pretendem construir na unidade e qual formação querem para quem ali
estuda. Tudo preto no branco. Elaborar um plano pode ajudar a equipe escolar e
a comunidade a enxergar como transformar sua realidade cotidiana em algo melhor.
A outra possibilidade - que costuma ser bem mais comum do que o desejado - é
que sua elaboração não signifique nada além de um papel guardado na gaveta.
Se bem formatado, porém, o próprio
processo de construção do documento gera mudanças no modo de agir. Quando todos
enxergam de forma clara qual é o foco de trabalho da instituição e participam
de seu processo de determinação, viram verdadeiros parceiros da gestão. O
processo de elaboração e implantação do projeto pedagógico é complexo e dúvidas
sempre aparecem no caminho. A seguir, respondemos às oito perguntas mais comuns
nesse percurso. Nos dois quadros, você encontra exemplos de unidades em que seu
desenvolvimento representou um salto de qualidade. Assim, fica mais fácil
checar como andam seus conhecimentos sobre o assunto e rever o projeto
pedagógico de sua escola.
PASSAPORTE DA VIRADA
Até 1998, o CEMEJA Professor Doutor André Franco
Montoro, em Jundiaí, na Grande São Paulo, seguia o padrão do ensino
"supletivo": o aluno tinha de fazer a prova de cada um dos módulos de
todas as disciplinas, não importando os conhecimentos já adquiridos. O
resultado era o aumento constante dos índices de evasão. Sob o comando da
diretora Kátia Carletti, a equipe docente partiu para uma verdadeira revolução
em seus tempos e espaços de ensino e aprendizagem. A base foi um novo projeto
pedagógico, feito após uma pesquisa sobre as necessidades dos estudantes.
"Se o aluno encontra barreiras, ele se desestimula e desiste de
estudar", diz Kátia. O sistema de módulos foi extinto e todo o material
didático utilizado passou a ter elaboração própria. A bateria de provas foi
trocada por outras formas de avaliação e criou-se o "passaporte" - em
que os professores registram os avanços de cada estudante e sua frequência nas
diferentes atividades oferecidas. Os alunos passaram a receber atendimento
individual para tirar dúvidas de acordo com sua disponibilidade. Como uma das
bandeiras da escola é o incentivo à leitura, ela está presente nos corredores,
em jornais murais e nas salas de aula, em leituras feitas pelos professores.
1. Em que contexto histórico surgiu o
projeto pedagógico?
Na década de 1980, o mundo mergulhou
numa crise de organização institucional, quando se passou a questionar o modelo
de Estado intervencionista - que determinava o funcionamento de todos os órgãos
públicos, inclusive a escola. Nesse contexto internacional, o Brasil vivia o
movimento de democratização, após um longo período de ditadura. A centralização
e a planificação típicas do governo militar passaram a ser criticadas e, na
elaboração da Constituição de 1988, o Fórum Nacional em Defesa da Escola
Pública (que congregava entidades sindicais, acadêmicas e da sociedade civil)
foi um dos grandes batalhadores pela "gestão democrática do ensino
público", um conceito que pretendia oferecer uma alternativa ao
planejamento centralizador estatal. Outro aspecto importante é que nessa mesma
época a escola brasileira passou a incluir em seus bancos populações antes
excluídas do sistema público de ensino. Ela ficou, assim, mais diversa e teve
de adequar suas práticas à nova realidade. A instituição de um projeto
pedagógico surgiu como um importante instrumento para fazer isso.
2. Qual é a relação do global e do
local com o plano?
No modelo vigente durante a ditadura,
o que era permitido aos professores ensinar (e aos alunos aprender) ao longo do
processo de escolarização era decidido quase exclusivamente pelo governo militar.
A Educação era toda organizada com base em determinações do poder central.
Assim, os conteúdos eram tratados de maneira hegemônica e as instâncias locais
(ou seja, as próprias escolas) ficavam numa posição de "passividade"
diante dessas imposições. Com a instituição do projeto pedagógico, na
Constituição de 1988, a realidade local passou a funcionar como "chave de
entrada" para a abordagem de temas e conteúdos propostos no currículo -
justamente por serem relevantes na atualidade. O plano, por outro lado, deve
prever que a escola conecte seus alunos com as discussões globais,
re-encontrando sua importância cultural na comunidade.
3. O que o bom projeto pedagógico
deve conter?
Alguns aspectos básicos devem estar
presentes na elaboração do projeto pedagógico de qualquer escola. Antes de mais
nada, é preciso que todos conheçam bem a realidade da comunidade em que se
inserem para, em seguida, estabelecer o plano de intenções - um pano de fundo
para o desenvolvimento da proposta. Na prática, a comunidade escolar deve
começar respondendo à seguinte questão: por que e para que existe esse espaço
educativo? Uma vez que isso esteja claro para todos, é preciso olhar para os
outros três braços do projeto. São eles:
- A proposta curricular - Estabelecer
o que e como se ensina, as formas de avaliação da aprendizagem, a organização
do tempo e o uso do espaço na escola, entre outros pontos.
- A formação dos professores - A
maneira como a equipe vai se organizar para cumprir as necessidades originadas
pelas intenções educativas.
- A gestão administrativa - Que tem
como função principal viabilizar o que for necessário para que os demais pontos
funcionem dentro da construção da "escola que se quer".
Assim, é importante que o projeto
preveja aspectos relativos aos valores que se deseja instituir na escola, ao
currículo e à organização, relacionando o que se propõe na teoria com a forma
de fazê-lo na prática - sem esquecer, é claro, de prever os prazos para tal.
Além disso, um mecanismo de avaliação de processos tem de ser criado, revendo
as estratégias estabelecidas para uma eventual re-elaboração de metas e
ideais.
Indo além, o projeto tem como desafio
transformar o papel da escola na comunidade. Em vez de só atender às demandas
da população - sejam elas atitudinais ou conteudistas - e aos preceitos e às
metas de aprendizagem colocados pelo governo, ela passa a sugerir aos alunos
uma maneira de "ler" o mundo.
4. Quem deve elaborá-lo e como deve
ser conduzido o processo?
A elaboração do projeto pedagógico
deve ser pautada em estratégias que deem voz a todos os atores da comunidade
escolar: funcionários, pais, professores e alunos. Essa mobilização é tarefa,
por excelência, do diretor. Mas não existe uma única forma de orientar esse
processo. Ele pode se dar no âmbito do Conselho Escolar, em que os diferentes
segmentos da comunidade estão representados, e também pode ser conduzido de
outras maneiras - como a participação individual, grupal ou plenária. A
finalização do documento também pode ocorrer de forma democrática - mas é
fundamental que um grupo especialista nas questões pedagógicas se
responsabilize pela redação final para oferecer um padrão de qualidade às
propostas. É importante garantir que o projeto tenha objetivos pontuais e
estabeleça metas permanentes para médio e longo prazos (esses itens devem ser
decididos com muito cuidado, já que precisam ser válidos por mais tempo).
5. O projeto pedagógico deve ser
revisado? Em que momento?
Sim, ele deve ser revisto anualmente
ou mesmo antes desse período, se a comunidade escolar sentir tal necessidade. É
importante fazer uma avaliação periódica das metas e dos prazos para ajustá-los
conforme o resultado obtido pelos estudantes — que pode ficar além ou aquém do
previsto. As estratégias utilizadas para promover a aprendizagem fracassaram?
Os tempos foram curtos ou inadequados à realidade local? É possível ser mais
ambicioso no que diz respeito às metas de aprendizagem? A revisão é importante
também para fazer um diagnóstico de como a instituição está avançando no
processo de transformação da realidade. Além disso, o plano deve passar a
incluir os conhecimentos adquiridos nas formações permanentes, revendo as
concepções anteriores e, quando for o caso, modificando-as.
6. Como atuar ao longo de sua
elaboração e prática?
O diretor deve garantir que o
processo de criação do projeto pedagógico seja democrático, da elaboração à
implementação, prevendo espaço para seu questionamento por parte da comunidade
escolar. O gestor é a figura que articula os diferentes braços operacionais e
conceituais em relação ao plano de intenções, a base conceitual do documento. É
quem deve antecipar os recursos a serem mobilizados para alcançar o objetivo
comum. Para sua implantação, ele também cuida para que projetos institucionais
que se estendam a toda a comunidade escolar - como incentivo à leitura ou à
proteção ambiental - não se percam com a chegada de novos planos, mantendo o
foco nos objetivos mais amplos previstos anteriormente. Além disso, é ele quem
garante que haja a homologia nos processos, ou seja, que os preceitos abordados
no "plano de intenções" não se deem só na relação professor/aluno,
mas se estendam a todas as áreas. Por exemplo: se ficou combinado que a troca
de informações entre pares colabora para o processo de aprendizagem e é
positiva como um todo, a organização dos espaços da escola deve propiciar as
interações, a relação com os pais tem de valorizar o encontro entre eles, as
propostas pedagógicas precisam prever discussões em grupo etc.
7. O projeto pedagógico precisa
conter questões atitudinais?
Sim, há uma função socializadora
inerente à escola e ela é difusora de valores e atitudes, quer tenhamos
consciência disso, quer não. As instituições de ensino não são entidades
alheias às dinâmicas sociais e é importante que tenham propostas em relação aos
temas relevantes também do lado de fora de seus muros - já que eles se
reproduzem, em maior ou menor escala, em seu interior. O que não se pode determinar
no projeto pedagógico são respostas a essas perguntas, que a própria sociedade
se coloca. Como resolver a questão da violência, da gravidez precoce, do
consumismo, das drogas, do preconceito? Diferentemente do que propunha o modelo
do Estado centralizador, não há uma só resposta para cada uma dessas perguntas.
O maior valor a trabalhar nas escolas talvez seja o de desenvolver uma postura
atenta e crítica.
8. Quais são as maiores dificuldades
na montagem do projeto?
É muito comum que o plano de intenções
- que deve ser o objetivo maior e o guia de todo o resto - não fique claro para
os participantes e que isso só se perceba no decorrer de seu processo de
implantação. Outro aspecto frequente é que os meios e as estratégias para
chegar aos objetivos do projeto pedagógico se confundam com ele mesmo - por
exemplo, que a pontualidade nas reuniões ganhe mais importância e gere mais
discussões do que o próprio andamento desses encontros. Um processo democrático
traz situações de divergência para dentro da escola: os atores têm diferentes
compreensões sobre o que é de interesse coletivo. Por isso, é preciso
estabelecer um ambiente de respeito para dialogar e chegar a pontos de acordo
na comunidade. Outro ponto que gera problemas é a confusão com o Plano de Desenvolvimento
da Escola (PDE) - documento que guia municípios e instituições a desenvolver
objetivos e estratégias para melhorar o acesso, a permanência e os índices de
aprendizagem das crianças.
Fonte disponível em http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/diretor/questoes-essenciais-projeto-pedagogico-427805.shtml >
Acesso em 29.05.2013.
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